domingo, 19 de setembro de 2010

Heloísa Périssé: Tudo a custo de R$ 100

Encontrei minha amiga Madalena e pela cara vi logo que tinha algo de errado.

— Que foi, amiga, que cara é essa?
— Ah, tô cismada com uma coisa. O 100!
— 100? Que 100? Cem com “c” ou sem com “s”?
— Com “c”. Ai, ai... É que simplesmente tudo na minha vida custa R$ 100! Ou, alguns “cem” reais, quando eu tenho que dividir.
— Explica melhor porque essa eu não entendi.
— Sabe a nutricionista na qual eu preciso levar a minha filha? Cem. As luzes que eu pretendo fazer no meu cabelo porque já estou com 100 milhões de cabelos brancos ... Aquela história de que mulher não envelhece, fica loura, né? Pois é, também vai custar cenzinho!
— Peraí, mas você nem está falando de coisas fundamentais, né?
— Mais ou menos! Se a minha filha não parar de engordar, vou ter que gastar muito mais no supermercado, comprar um monte de roupas novas e depois, é claro, colocá-la numa terapia.
Ou seja: vou gastar muitos R$ 100. Se eu ficar grisalha, vou deprimir e, certamente, perder o namorado! Aí, vou gastar R$ 100 em remédio! A impressão que eu tenho é que se eu piscar vou ter que desembolsar cenzinho. Aliás, falando em olho, estou tendo a sensação de ver uma mosquinha no canto da minha visão. Mas estou querendo me convencer do contrário.
— Como assim? É melhor ir ao oftalmologista.
— E pagar R$ 100 pela consulta? E pagar R$ 100 um monte de vezes se eu tiver que trocar de óculos?
— Bem, estes R$ 100 aí, acho que valem a pena.
— Peraí, já tinha esquecido de outros R$ 100! O aparelho de dentes da minha filha vai sair por quatro de R$ 100.
— Cem, quer dizer, sei...
— Vem cá, será que existe fobia de 100? Porque cada vez que eu pergunto quanto vai custar, já começo a ter taquicardia, as pernas tremem, fico tonta, com falta de ar, porque sei que vem “cem” pela frente.
— Não quero dar uma de psicóloga não, mas será que não é receio de assumir responsabilidades, arcar com as suas contas e assumir que é necessário esforço para poder obter as coisas?
— Pode ser...Também! Mas que os cem me perseguem, não tenho dúvida. Já estou tendo até pesadelo.
— Você sonhou que precisava pagar R$ 100 para quê?
— Não. Sonhei que tinha ganhado R$ 100 mil na loteria!
— Putz, e desde quando isso é pesadelo?
— Calma! É que no sonho, quer dizer, no pesadelo, não encontrava o papel do jogo para levar na lotérica. Fiquei procurando, procurando, procurando, sem achar. Fiquei sem o comprovante com “s” e sem os cem mil da grana, com “c”.
— Acho que você precisa parar com esta ideia fixa nos 100. Coisa de gente sem juízo. Com “s”.
— Tudo bem. Vou tentar. Mas não depende só de mim. Cem não é uma escolha minha.
— Aliás, já que foi você quem tocou no assunto... Sabe o
dinheiro que eu estou te devendo? Eu ia te pagar hoje, mas...
— Mas o quê?
— Tô sem. Com “s”.
— Ai, ai... Não tô falando?
Boa semana!

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